Uma breve história

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Dia 07 de fevereiro, data em que o Balé da Cidade de São Paulo completa 50 anos de sua criação, eu tenho todos os motivos para comemorar.

Foi a exatos 40 anos, em 1978, dos quais 37 trabalhando ativamente nesta companhia, que iniciei a minha carreira profissional na dança, quando fui convidado para integrar o elenco do Baleteatro Minas, grupo de dança do Studio Ana Pavlova em Belo Horizonte.  No ano anterior, em 1977, ainda estudante na Fundação Clóvis Salgado e na escola do Grupo Corpo deu-se o meu primeiro contato com o então Corpo de Baile do Theatro Municipal de São Paulo, que passou a chamar-se Balé da Cidade de São Paulo em 1981.

Na época, a companhia, sob direção artística de Antonio Carlos e Iracity Cardoso, se apresentou no Teatro Palácio das Artes, com dois programas que reuniam obras de Victor Navarro, Oscar Araiz e do próprio Antonio Carlos Cardoso. Corações Futuristas, Vivaldi, Danças Sacras e Profanas, Canções, Mulheres, Soledad e Nosso Tempo encheram os meus olhos. Totalmente arrebatado pela incrível performance daqueles intérpretes, por aquelas coreografias absolutamente fascinantes, soube naquele momento que era aquele tipo de dança e de artista que eu queria fazer e me tornar.

Iniciei os estudos de dança em 1976 no Conservatório de Música Lorenzo Fernandez, em minha cidade natal, Montes Claros (MG), com a bailarina Ymma Martins. Totalmente apaixonado pela arte do movimento, logo mudei-me para Belo Horizonte. Era início de 1977 e, para poder aprender, precisava fazer aulas das mais diversas formas de dança, pois já estava com 19 anos. Por sorte, eu tinha um corpo esguio por ter praticado bastante voleibol na adolescência e desenvoltura pela participação em muitas apresentações teatrais na escola e em pequenos grupos da cidade. Na capital, consegui um emprego para trabalhar das 19h à 1h na PRODEMG, empresa de processamento de dados bancários – o que permitia me dedicar inteiramente à arte que tanto amava durante a manhã e a tarde.

Comecei o ano fazendo uma aula por dia e logo passei a fazer três. Eu não me cansava e dançava até pelos corredores da empresa. Claro, recebia muita gozação dos colegas. Mas não me importava, precisava aprender rápido e fui atrás de todos os tipos de aula, balé clássico na escola da Fundação Clóvis Salgado, moderno na escola do Grupo Corpo, ainda na casa do bairro Serra, endereço antes de se mudar para sede atual no bairro Mangabeiras e jazz em um pequeno estúdio, com professores que infelizmente não me recordo o nome. Desde o início sabia que eu queria ser um bailarino moderno.

Em 1978, Paulo Babrek, meu professor de técnica Graham no Corpo, me levou para dançar com o Baleteatro Minas, que tinha direção artística de Bettina Bellomo, Dulce Beltrão e Silvia Calvo. Quando entrei para este grupo já estavam ensaiando Carmina Burana, com coreografia da argentina Adriana Coll. Apesar da pouca experiência, eu tinha facilidade para assimilar os passos e pouco tempo depois fiz a minha estreia como bailarino profissional em grande estilo, no palco do Palácio das Artes, um dos maiores e mais importantes teatros do país. Esta obra foi apresentada em Salvador, no II Encontro de Dança da Bahia, onde recebemos os prêmios de melhor grupo e melhor espetáculo. Para me dedicar inteiramente à dança, abandonei os estudos para o vestibular e também o emprego noturno. Minha família ficou bastante preocupada porque, além da questão do preconceito, acreditava que eu não conseguiria viver de dança. Para poder sobreviver, recebia uma ajuda de custo do estúdio e muita ajuda dos colegas.

Em meados de 1979, apesar do grande sucesso e de muitas apresentações em vários lugares de Minas e do Brasil, as dificuldades inerentes à área fizeram com que este grupo se dissolvesse. Para minha sorte, a Companhia do Palácio das Artes abriu inscrição para contratar bailarinos , que deveriam dançar Romeu e Julieta, com música de Serguei Prokofiev. Fui contratado e a experiência de entrar para uma companhia oficial e sobretudo dançar esta obra com coreografia do Hugo Delavalle, que havia dançado com John Cranko, foi transformadora. Apesar de certas dificuldades físicas e técnicas, eu seguia firme em meu propósito. Devorava todo tipo de leitura sobre dança e corria para ver tudo que se apresentava na cidade. Era tão entusiasmado pela dança que me lembro de percorrer a calçada do Parque Municipal na Avenida Afonso Pena fazendo grand jeté manege. Nem dava atenção para as pessoas que passavam e deviam pensar “que maluco é este?”.

No final de 1979, por obra do destino, houve uma mudança na direção artística da Companhia do Palácio das Artes e todos nós que lá dançávamos tivemos que passar por uma audição. Para meu desespero, fui reprovado. Quando foi falar comigo, o novo diretor, o argentino Eduardo Helling, disse que eu era “muito duro” e que talvez a dança não fosse para mim. Sugeriu até que eu procurasse outra profissão. Fiquei muito triste e decepcionado, com imensos nós na garganta e no estômago. Mas naquele mesmo dia, mais tarde, tive a sorte de encontrar Iracity Cardoso, que havia integrado a comissão de seleção da audição, em um restaurante. Totalmente desolado, fui conversar com ela. Após me dar ótimos conselhos, me informou que haveria audição para o Corpo de Baile do Theatro Municipal de São Paulo e sugeriu que eu fosse para a capital paulista.

Juntamente com Suzana Mafra, que havia sido minha colega no Baleteatro Minas, viajei de ônibus para São Paulo, com o coração cheio de esperança e voando alto em meus sonhos. Porém, procurava manter os pés no chão, pois conhecia o altíssimo nível da companhia para a qual iria tentar uma possível admissão. No dia do teste entrei no prédio da Rua João Passalacqua, sede do Corpo de Baile, e subi as escadas pela primeira vez totalmente desesperançado pois a Suzana, exemplo de bailarina, por quem eu tinha grande admiração, já havia passado pela prova e tinha sido dispensada. Eu queria desistir, mas ela insistiu que eu fizesse o teste, pois havíamos viajado até lá para isto. Sem grandes pretensões e com muita humildade, entrei pela primeira vez naquele salão imenso e senti meu coração acelerar. Por ter sido muito bem orientado em meu início de carreira por Bettina Bellomo, a quem devo muito pelo meu aprendizado e talvez por estar no lugar certo e na hora certa, fui adquirindo confiança à medida que a audição avançava. Percebia que aqueles que estavam próximos de mim tinham muito mais dificuldade em executar os passos do que eu. Fazíamos uma aula de balé clássico e passei da barra para o centro cada vez mais confiante. Quando, na parte final do teste, aprendemos a variação masculina de Corações Futuristas, eu já estava cheio de mim, pois me identificava incrivelmente com os passos desta coreografia de Victor Navarro. Dancei aquela pequena variação e até hoje me lembro dela por inteiro. Com toda garra e energia que possuía, me senti realmente iluminando o espaço em torno de mim. Junto comigo, três outros rapazes foram aprovados para um período de experiência de três meses. Lembro-me de ter pensado: “agora que me deram a chance, não vou deixar escapar”. Minha felicidade em ser aprovado para integrar o Corpo de Baile Municipal se completou quando, no dia seguinte, Suzana Mafra foi chamada pela direção para fazer aula com a companhia – o que lhe permitiu ser melhor avaliada e, logo em seguida, aprovada.

Assim, no início de 1980, subi as escadas da Passalacqua pela segunda vez, com um sorriso rasgado. Com breves intervalos de tempo, há 37 anos continuo subindo estes degraus com o mesmo amor e entusiasmo por esta companhia, que teve importância vital na minha formação de artista e homem.

Parabéns Balé da Cidade de São Paulo! Obrigado por me acolher por tantos anos! Que sua trajetória seja eterna!

Raymundo Costa, São Paulo, Janeiro de 2018