RIO DE JANEIRO CELEBRA A DANÇA COMO GESTO POLÍTICO

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Mais político do que nunca, o Festival Panorama – maior evento de artes do corpo, dança e performance do Brasil e um dos mais importantes da América Latina – celebra 25 edições. De 3 a 23 de novembro, a curadora e diretora do festival, Nayse López, traz ao Rio de Janeiro mais de 20 atrações internacionais e brasileiras em linguagens diversas. Serão performances, mostras, intervenções urbanas, workshops e conversas públicas, todos com preços acessíveis (até R$ 30) ou entrada franca.

“Para os 25 anos do festival reunimos um conjunto de artistas e obras inéditas, e reapresentações que se cruzam com a história do festival. Além disso, este ano o Panorama se consolida como uma manifestação política, e investiga a relação do gesto com o tema em diversos espetáculos”, diz Nayse.

Durante 20 dias o festival ocupará espaços no Centro, Zona Sul e Zona Norte da cidade: Oi Futuro Flamengo, Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto, Centro Cultural Banco do Brasil, Centro de Artes da Maré, Sala Cecília Meireles, Teatro Cacilda Becker, Teatro Municipal Carlos Gomes e o Museu de Arte do Rio.

 

DESTAQUES INTERNACIONAIS

A curadoria do Panorama sempre se propôs a apresentar novos espetáculos da cena contemporânea mundial. Esse ano, dois trabalhos internacionais fazem suas estreias por aqui: Dub Love (França) e O Que Fazer Daqui Para Trás (Portugal).

Dub Love, dos coreógrafos e bailarinos François Chaignaud e Cecilia Bengolea, desconstrói a formalidade e tradição do balé clássico em uma peça toda dançada em ponta, ao som da música vibrante e impactante. Ao lado do bailarino Alex Cephus, os coreógrafos e também bailarinos performam em meio a um grande sistema de som. Vestidos em collants cor da pele e em sapatilhas de ponta, experimentam gestos ao som de um remix de dub e reggae criado pelo DJ High Elements. 

Em O Que Fazer Daqui Para Trás, o bailarino e coreógrafo português João Fiadeiro, da Companhia RE.AL, explora a duração do tempo suspenso, o intervalo, focando a atenção no que não está acontecendo diante do público. O não dito é mais importante que aquilo que se diz, a ausência se sobrepõe à presença.

Para representar as produções africanas que já passaram pela programação do Panorama, será apresentado Tempo e Espaço: Os Solos da Marrabenta. A potente performance  do moçambicano Panaibra Gabriel, em que o artista desconstroi a ideia de corpo colonizado africano, foi exibida aqui em 2010, com coprodução do festival. A performance é acompanhada pelo músico Jorge Domingos, que executa ao vivo a "marrabenta", estilo de música urbana típica daquele país.

O espetáculo The Show Must Go On, do coreógrafo francês Jérôme Bel, estreou em 2001 e no ano seguinte foi apresentado no Panorama. O trabalho coloca em cena 20 intérpretes, entre dançarinos profissionais e pessoas comuns, ao som dos hits da música mundial dos últimos 30 anos. A cada montagem, ele brinca com as expectativas da representação e o efeito de espelho entre bailarinos e espectadores. Dentro da programação deste ano, pela primeira vez, a produção ganha uma versão inédita com intérpretes brasileiros. 

Nascido no Panorama de 2007 dentro do coLABoratorio, Maravillosa propõe, com humor,  uma reflexão sobre a  comercialização que envolve as produções artísticas. Numa homenagem a todos os projetos colaborativos que começaram dentro festival, as coreógrafas e bailarinas Federica Folco (Uruguai) e Josie Cáceres (Equador) reapresentam o espetáculo oito anos depois.

 

DESTAQUES NACIONAIS

O Panorama apresenta o novo trabalho de Angel Vianna, que terá sua pré-estreia no festival. Com 87 anos de idade e 65 de carreira, Angel é uma patrimônio da cultura brasileira. “O que mais gosto é de gente e gente é como nuvem, sempre se transforma”. Da frase, sempre repetida por Angel Vianna, nasceu o espetáculo Angel Vianna – o que eu mais gosto é de gente, com sete mulheres e quatro homens em infinitas conversas. Todos eles já passaram pelos ensinamentos de Angel e carregam influências da artista em suas histórias. Em cena, nomes importantes da dança carioca, numa emocionante homenagem à mestra, sem moldes ou formatos pré-estabelecidos. 

Para homenagear as atrações e artistas nacionais da programação do festival ao longo desses anos, três estreias nacionais marcam a edição de 2016. Médelei – eu sou brasileiro (etc) e não existo nunca, de Cristian Duarte (SP); Looping: Bahia Overdub, Felipe de Assis, Leonardo França e Rita Aquino (BA), e Batucada, uma coprodução Brasil/Holanda, do piauiense Marcelo Evelin/demolition inc.

O ponto de partida de “Médelei – eu sou brasileiro (etc) e não existo nunca” é uma famosa campanha publicitária veiculada pelo Governo Federal na televisão brasileira em 2004, em que o espírito nacionalista é bastante estimulado.

“Looping: Bahia Overdub” constitui um estudo do tempo. Com movimentos coletivos de tensão e distenção, inspirados pelas contradições da cultura baiana, o espetáculo é repetição, fusão e supressão, ciclos que se encerram em si mesmos.

Batucada”, a mais nova criação de Marcelo Evelin/demolition Inc., foi concebida para o Kunsten Festival des Arts, de Bruxelas, e é inédita no Brasil. Apresenta-se como uma intervenção político-alegórica, em que mascarados batucam panelas, frigideiras e latas numa espécie de desfile apoteótico e revolucionário. O grupo é diverso e vibrante, com integrantes selecionados para residência artística realizada dentro do Panorama durante quatro dias. O ritmo transita entre a festa e o protesto. Todos se misturam e tornam a cadência da batucada contagiante, envolvendo o público numa coreografia. Natural do Piauí, Marcelo Evelin é coreógrafo, pesquisador e intérprete. Vive entre Teresina e Amsterdã. Na Europa há 30 anos, trabalha com dança, tendo colaborado com artistas de variadas linguagens em projetos envolvendo teatro físico, música, vídeo, instalação e ocupação de espaços específicos. É criador da Companhia Demolition Incorporada e professor na Escola Superior de Mímica de Amsterdã.

 

CARIOCAS 25 ANOS DEPOIS

O Panorama selecionou um recorte especial com três espetáculos recentes de alguns dos nomes mais importantes da dança carioca, que há mais de duas décadas apresentam seus trabalhos no festival. Sobre Cisnes, de Giselda Fernandes; Romeu, de João Saldanha, e Finita, de Denise Stutz.

Sobre Cisnes é uma obra de um corpo e dois objetos: sacos plásticos e sapatilhas de ponta. Neste solo, a bailarina encarna o cisne que dança em pontas, com um tutu feito de 500 sacos plásticos. O material, um vilão poluidor, ganha uma nova e original estética ao compor o figurino da peça, gerando múltiplas imagens e aludindo a questões relacionadas ao meio ambiente e à sustentabilidade. Ao mesmo tempo que adornam e divertem, os sacos ameaçam sufocar a bailarina.

Escrito por Marcelo Braga durante o tratamento de um linfoma, Romeu tem interpretação cênica e direção final de seu companheiro de vida e trabalho por mais de 20 anos, o bailarino e coreógrafo João Saldanha, um dos expoentes da dança contemporânea carioca da sua geração. O espetáculo expõe questões íntimas de forma reflexiva e bem-humorada. Antes de morrer, Braga pediu a Saldanha que desse continuidade ao projeto. O coreógrafo atendeu ao pedido e convida o público a uma viagem pelas paixões, virtudes, medos e canções do autor.

Denise Stutz caracteriza Finita como “feminino singular de finito, aquilo que tem fim ou limite”. Como falar do que não existe mais? O solo começou a ser gestado em 2010 e tem como ponto de partida uma carta enviada por sua mãe. Com essa inspiração, ela utilizou a arquitetura cênica do teatro para elaborar o conceito de perda e trabalhar os temas do envelhecimento e da ausência sob a perspectiva da dança.

 

PANORAMINHA

Para celebrar um dos programas de maior sucesso dentro do Festival, Neto Machado traz novamente ao Panoraminha o solo Kodak. A partir de memórias de sua infância, o artista curitibano coloca para dançar personagens do universo infantil, estimulando uma reflexão sobre os estereótipos de gênero em meio a 100 caixas de arquivos coloridas.

 

EXPOSIÇÃO

Corpo Visto é uma exposição que comemora os 25 anos do Panorama numa viagem pelos trabalhos do campo das artes visuais que foram criados ou exibidos em edições anteriores do festival. Artistas participantes: Manuel Vason, Ana Borralho & João Galante, Celina Portella, Diana Blok, João Penoni, Marcos Chaves, Lucy Guerin, Marlon Barrios Solano, Mauricio Dias e Walter S Riedweg.

 

VIDEOINSTALAÇÃO

Como você se expressa sem usar a palavra? Emoticon nasceu dentro do projeto HOBRA, uma residência artística colaborativa realizada em meados deste ano no Rio de Janeiro. A bailarina e coreógrafa Dani Lima e a jornalista e filmmaker independente Clara Cavour deram início a esse trabalho ao junto com Fernando Belfiore, paulista radicado na Holanda. Dani Lima deu continuidade ao projeto e, nesta edição do Panorama, mescla dança, vídeo e artes visuais através da criação de um arquivo videográfico de retratos gestuais dos artistas e equipes que ajudaram a construir os 25 anos do Festival Panorama.

 

WORKSHOPS, DEBATES E COLABORATIVOS

Este ano a Zona Norte do Rio recebe os workshops com artistas participantes da programação: João Fiadeiro, Cecília e François; Cristian Duarte e Federica Folco ministrarão aulas no Centro de Artes da Maré, na comunidade da Nova Holanda.

O Lab Uni – Laboratório Universitário retorna ao Festival Panorama durante dois dias. Estimulando o pensamento acadêmico, promove um encontro de pesquisadores atuantes nas universidades brasileiras cujo foco de estudo são o corpo e a performance. O Lab Uni faz parte do projeto Panorama na Universidade. Este ano, se une aos realizadores das mostras universitárias para discutir o contexto e as possibilidades da criação acadêmica na área.

O Panorama promove ainda a 5° edição do Laboratório de Crítica – organizado em parceria com o Departamento de Arte Corporal da UFRJ e o CoLABoratório – Futuros Possíveis.

 

PATROCÍNIO

Festival Panorama 2016 é patrocinado pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, através da Secretaria Municipal de Cultura; Oi e Petrobras, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Rio de Janeiro; e CCBB, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.