"Nuvem de pássaros" e "Sensorium"

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"Nuvem de pássaros" e "Sensorium" revelam o poder do movimento

Espetáculos apresentados pelo Encontro Para-Dançar mostraram a dança entre o conflito e o regozijo

Por Josi Quevedo*

A dança tem o poder de se expressar pelo movimento. E, se as performances conseguem passar ao público toda uma carga de emoções do que se está interpretando no palco, temos o melhor da arte. E isso acontece em "Nuvem de pássaros" e "Sensorium", peças apresentadas no Teatro Guairinha, em Curitiba (PR), durante o Encontro Para-Dançar em março deste ano.

"Nuvem de pássaros" marca pela dramaticidade de um grupo de cinco pessoas, que começam o espetáculo com uma máscara de meia no rosto, transformando a aparente tranquilidade do público em uma sinergia de sufocamento e busca pela liberdade. O mote principal, inspirado nas ações de migração dos pássaros, transpõe para a realidade do que ali se apresenta cenas de união, desamor e amor, conflito e, por fim, o abraço do coletivo.

O chão é o verdadeiro limite quando os rostos, então descobertos, aproximam os artistas da plateia, dando a entender que para viver é necessário se jogar no redemoinho de descobertas individuais, mesmo que muitas vezes seja o grupo que ofereça melhores condições de sobrevivência. Sem dúvida, é no movimento que esses pássaros se libertam das amarras morais e cenográficas, alçando voos velozes em contraste ao isolamento e à limitação.

Já em "Sensorium" temos uma peça recheada de gente e sensualismo, com peles a mostra e cadência de rodopios preciosos e precisos. O início do espetáculo brinca com o público: uma bela moça adentra o teatro sentada em uma cadeira de rodas passando pelo meio da plateia. Para subir, duas pessoas que a acompanham demonstram dificuldade em erguê-la com o suporte diante da miniescadaria do palco. Diante da situação, nitidamente alguns indivíduos da audiência pensam em se levantar e ajudar.

Quando os dois acompanhantes conseguem colocá-la no palco, ela prontamente levanta-se e sai caminhando. Investiga-se o que é possível e o que não é tão fácil, de imediato. A partir daí, uma miríade de danças, corpos e malabarismos acontecem, o que proporciona um bem-estar com a profusão artística do que se vê a olho nu, sem filtros.

Ambas as peças são destacadas tanto com coreografias de tirar o fôlego, quanto por trilhas sonoras de alto impacto. Certeiras e em consonância com sentimentos que diluem os participantes espectadores dentro do palco, os espetáculos demonstram um poder artístico pouco encontrado por aí, a saber: a capacidade de mexer com nossos sentidos e vontades.

*Josi Quevedo é jornalista, Mestre em Comunicação e Informação, Doutora em Políticas Públicas e assessora de imprensa na Smartcom Inteligência em Comunicação.

Foto - Cayo Vieira