GRUPO CORPO -"GIRA": CORPOREIDADES ESPIRITUAIS

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A dança como um “indicador de transcendência” ou como revelação da “presença do espírito na carne”, segundo os referenciais propugnados pelo pensar filosófico de Roger Garaudy.

 

Uma imanente contextualização para o mais novo espetáculo do Grupo Corpo que, sob a titulação generalizada de Gira, traz aos palcos a reunião de duas simbióticas criações coreográficas de Rodrigo Pederneiras.

 

A retomada de Bach, com a releitura musical de alguns de seus icônicos temas por Marco Antônio Guimarães, e Gira, composições da banda paulista Metá Metá (Juçara Marçal/vocais, Thiago França/sax, Kiko Dinucci/guitarra) a partir de suas inventivas experimentações em torno das sonoridades dos “terreiros”.

 

Revestidas nas gestualidades sacro/profanas, celestiais/terrenas, espiritualizadas e sensoriais dos 21 bailarinos do Corpo pelas artesanais tessituras coreográficas de Rodrigo Pederneiras. Em performance impar , num bravo instante de remissão diante da grave crise que vem cerceando a livre expansão da dança contemporânea brasileira.

 

Compensador em seu pulso  estético de valoração pela convergência de duas linguagens autóctones que marcaram presencialmente  nosso criacionismo cultural , o barroquismo mineiro e a ritualística dos terreiros. Irradiando-se em sotaque especular na fisicalidade espiritual de duas obras – Bach e Gira - em potencial contraponto artístico/crítico.

 

Para a conectividade  estético/emotivo da proposta junto ao público a primeira parte com Bach, original de 1996, contextualiza o barroco no mix sonoro/gestual de reinvenção do repertório bachiano ,na contemporaneidade dos acordes do Uatki e na sua transcrição em energizante euforia de movimentos. Desde a metafórica simbolização de tubos de órgão à coesão e luminosidade do barroquismo dourado nos figurinos de Freusa Zechmeister.
 

Após o êxtase dos acordes, das cores e dos corpos na poética imaginária da suspensão divinal pairando espacialmente  sobre o solo/palco, o dialetal encontro terreno do Corpo acionado na incorporação das  entidades presididas por Exu, o Orixá mór, via Gira.

 

Transubstanciado no comando, aqui, do cerimonial de encantamento religioso/popular, com sutil  visagismo sanguíneo entre o pescoço e a carne de peitorais desnudados. “Metá Metá”, macho e fêmea unificados nos circuitos umbandistas do Gira, em território candomblé deste metafórico espaço cênico de descendimento dos orixás.

 

Alternando saídas e entradas de bailarinos,confinados  sob véus nas coxias/santuários, na funcional envolvência de uma instalação ambiental (Paulo Pederneiras), ora entre blackouts e  pontos luminares ora  entre sombras (Paulo e Gabriel Pederneiras) modulando torsos despidos sobre rústicas saias incolores (outra vez, Freusa).

 

Neste reencontro do gestual/signo na trajetória coreográfica do Corpo, de volta os remelexos e requebros de quadril, acrescidos, agora, dos agachamentos na desconstrução/descontração da verticalidade postural em tensas dobraduras/elipses/giros propícios ao ato de receber as “entidades”.

 

Fazendo de Gira, sem  artifícios virtuosísticos e sem concessões folcloristas, um carismático ritual coletivo de arte/vida , com tal apelo de sintonização palco-plateia que,  a qualquer   momento, o próximo incorporado pode ser você...
 

                                         Wagner Corrêa de Araújo