Giselle

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Giselle.

Dentre todos os ballets de repertório conhecidos, Giselle foi o mais reapresentado em toda a história do Ballet. Isso porque, é uma obra prima, que se tornou, de certa forma, atemporal. Não era como La Syphide de encarna todos os ideais Românticos, mas era também romântico.

O imaginário da época da estreia de Giselle se caracterizava pela valorização do fantástico e do fantasmagórico, juntamente com estudos acerca da existência de espíritos. Tudo isso era reforçado pelos poetas: Chateaubriand, Heine, Gautier e Victor Hugo.

Após a ascensão de La Syphide no ano de 1832, o ballet se tornou uma obsessão na vida destes poetas e Gautier, inspirado nesta amalgama (Romantismo e Ballet) escreve Giselle.  Ele teve a ideia para a obra ao ler um poema de Victor Hugo intitulado “Fantomes” ( sobre uma senhorita espanhola que morre a dançar) e ao conhecer os seres que assombravam a mente de Heine: as willis ou dançarinas noturnas. Heine evocava esse tema de lendas eslavas antigas. As Willis eram os espíritos de jovens que morriam antes de suas núpcias (como as freiras da Opera Robert le diable) que saiam de seus túmulos para seduzir vitimas masculinas  e obriga-las a dançar até a morte. Heine imaginava as willis de seus poemas como sendo” bacantes mortas  envergando os seus vestidos de noiva, com anéis cintilantes nos dedos e faziam lembrar o inebriante desejo do doce e sensual olvido que observara nas mulheres parisienses quando essas se lançavam a dança com Fúria e Loucura num baile”. ( Smith, Ballet and Opera, pg 172)

Gautier então não perde tempo e chama o libretista Vernoy de Saint Geores para conceber o Ballet. Tudo foi muito rápido, chamado para compor a música, Adolphe Adans concluiu a obra em 8 dias, e a partitura completa foi escrita em 3 semanas. Os cenários foram encomendados para Cicéri e a coreografia confiada a Jean Coralli que não a concebeu sozinho, na realidade ele teve a brilhante ajuda de Jules Perrot. Foram dados 2 meses para o ensaio da coreografia.

Jules Perrot era um bailarino talentosíssimo da Opera de Paris que iniciou sua carreira como acrobata e ginasta. Ficou famoso pelas suas digressões pela Europa e em uma destas viagens, ele conhece a Jovem bailarina Carlota Grisi formada pela escola de bailados do Scala de Milão. Desta parceria surge um romance entre os dois que marcou suas histórias e suas danças. Se tornaram amantes e amigos.

Grisi foi para Opera de Paris e logo conquistou o publico e seus mestres. Ela era uma pessoa de origem humilde nascida em uma pequena aldeia na ístria (Itália) que quando adentra a escola de ballet se refina. Isso a formou como uma bailarina muito versátil, que transitava do mundo real ao mundo espiritual com naturalidade: seria a pessoa perfeita para interpretar a Giselle. E assim aconteceu. Para incrementar mais a história deste bailado, Gautier se apaixona perdidamente por Grisi (teria em seu leito de morte clamado o nome dela diversas vezes), culminado então em uma obra verdadeiramente inspirada no amor romântico e dicotomicamente na coexistência de dois mundos.

Giselle se baseia em três princípios do Romantismo: Loucura, valsa e um passado medieval idealizado. O primeiro ato se passa no plano material em uma pequena vila alemã onde acontecem as cenas dramáticas típicas dos exageros românticos. Temos mentira, traição, amor impossível (devido à questão da inexistência de mobilidade social) e culmina no suicídio (no libreto original Giselle suicida com a espada de seu nobre amado, por isso mesmo ela é sepultada em uma floresta e não no solo sagrado da igreja). E no segundo ato temos um ambiente fantasmagórico, místico e principalmente vingativo. É um ato totalmente revelador no sentido histórico, nele são explicitados os aspectos principais do imaginário da época e dos avanços das ciências do espirito: é um perfeito documento Historiográfico.

As Willis nesta obra representam o ódio e rancor, lideradas por Mirtha (a primeira daquela falange obsessora, a que agrupa e coroa cada uma das mulheres rejeitadas). No ato dois, Giselle seria iniciada nesta falange e se esperava que ela se unisse as Willis. Mas não é isso que acontece, mostrando a perfeição da musa romântica, Giselle se recusa a fazer parte desta vingança, e protege seu amado até a alvorada. Ela é a que perdoa e por isso mesmo não é coroada como uma das willis.  

O segundo ato também é revelador no que tange o caráter das ciências do espirito típicas do século XIX.  As Willis são espíritos materializados ( por isso mesmo o uso dos véus brancos sobre a face) que não suportam a luz do dia ( estudos sobre ectoplasma).

Em 28 de junho de 1841, estreia no palco do Opera de Paris Giselle; e a partir desta data se materializa o maior de todos os repertórios que se consagra na atemporalidade. É apresentado ainda na década de seu lançamento em grande parte do mundo, esteve nos EUA em 1846, e em Cuba 1847, mas será na Rússia do final dos oitocentos que ele se imortaliza pelas mãos de Marius Petipá e toma o Mundo pelos pés do Ballet Russes de Diaghilev.

 

 

 

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