GARRAFA ENFORCADA e NUVENS DE BARRO

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Cia. Mário Nascimento

No ano em que comemora duas décadas de atividades, a Cia. Mário Nascimento coreografou trejeitos e expressões corporais listados no clássico História de nossos gestos, do antropólogo Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), lançado em 1976.

O título Garrafa enforcada remete ao capítulo sobre a tentativa frustrada de um bêbado de se enforcar. A expressão também se refere a colocar as mãos no pescoço, sinalizando a sensação de sufocamento. O sinal da cruz, retratado no espetáculo, pode expressar medo. Já “fazer olhão” – colocar o dedo abaixo do olho para abri-lo – significa estou atento a você. Mario explica que esse gesto, assim como o tradicional “dar uma banana”, remete à população brasileira diante deste momento histórico conturbado.

“A companhia tem um compromisso políticosocial e de resistência. Muitos dos gestos que apresentamos em cena servem para representar esse público, que é extremamente alegre, mas também está de olho no cenário contemporâneo”, defende Mário.

Em 20 anos da companhia, é a primeira vez que o coreógrafo divide a direção de um espetáculo. Garrafa enforcada foi criado em parceria com Rosa Antuña. “Nosso objetivo é levar para a dança, literalmente, os gestos como estão descritos no livro, buscando também um significado corporal para eles. Levamos para o corpo inteiro alguns movimentos feitos apenas com a mão”, observa Rosa.

 A trilha sonora é assinada pelo músico Fábio Cardia, que integra a companhia desde o início. Ele trabalhou ritmos tipicamente brasileiros, como baiãomaracatu forró. A concepção de Garrafa enforcada envolveu intensa pesquisa do contexto histórico e cultural que envolve o tema. Rosa Antuña lembra que Cascudo escreveu o livro no Rio Grande do Norte, no início do século 20. Os coreógrafos acrescentaram àqueles gestos elementos do mundo contemporâneo.

“Usamos muito das culturas dos morros, como o sinal de xadrez com os dedos, código que designa prisão. Há também maneirismos da cultura hip-hop, como pôr a mão na região genital, comum durante as batalhas de rap. É uma simples mania, sem qualquer teor sexista. Sempre que o bailarino descobre algo novo, tem liberdade para inserir essa experiência no espetáculo”, explica Mário Nascimento.

O coreógrafo diz que as pesquisas vão prosseguir. “Nosso grande desafio foi fazer a simbiose entre o gestual e o movimento da dança. O livro intensifica algo que a companhia já usa frequentemente, mas não de forma tão assertiva. A dança tem a riqueza de descrever toda uma cena por meio do gestual. Nela, o gesto é anterior à palavra, por isso não há necessidade do texto verbal”, completa Nascimento.

Nuvens de barro destaca a simplicidade e o fantástico que compõem o universo do poeta Manoel de Barros (1916-2014). A iniciativa partiu de Cristiano Marques, diretor-geral da montagem. “O espetáculo estreou em 2016, um ano muito denso para o Brasil em diversos aspectos. Como contraponto, a gente criou algo leve para trazer a poesia em si e também a poesia corporal”, revela Marques.

Criação coletiva dos bailarinos, o espetáculo da Cia. de Dança Palácio das Artes tem direção coreográfica de Fernando Martins e direção cênica de Joaquim Elias. Esses profissionais convidados auxiliaram a equipe a “corporificar” a obra do poeta, anseio que se manifesta também na trilha sonora assinada pelo músico Rodrigo Salvador.

Cristiano revela que os bailarinos identificaram um traço recorrente na obra do poeta: coisas se humanizam, enquanto pessoas se coisificam. “Nossa ideia foi levar para os corpos as imagens descritas nos poemas. Há movimentos que fazem referência a seres rastejantes, borboletas, peixes, pedras, rios... Muitas vezes, isso gera dúvida no público, que não sabe se está vendo uma representação humana, de um animal ou de um objeto. Há cenas em que essas metáforas são óbvias. Em outras, são desenvolvidas de forma lúdica, mais abertas à subjetividade”, explica.

reinvenção dos seres e das coisas – ou a “desinvenção dos objetos”, como dizia o próprio Manoel de Barros – remete ao hábito da criança de, através da imaginação, dar novas funções e significados a tudo o que a cerca.

“Nossa infância fica sempre com a gente através da memória. Todo o espetáculo foi trabalhado de forma que qualquer espectador possa habitar suas memórias, resgatando imagens e elementos do passado. O lúdico mexe um pouquinho com o público, que se permite voar fora da asa, como propunha Manoel de Barros”, diz Cristiano.

Ambientado em um quintal imaginário, Nuvens de barro foi concebido para o pequeno Teatro João Ceschiatti, o que exigiu a divisão da companhia em dois elencos. Agora, todos os integrantes da companhia vão se apresentar no Grande Teatro.

“Unimos os dois elencos para ocupar uma sala maior. Juntos, eles funcionam como um espelho: desdobram-se e também se completam. Quem já viu Nuvens... poderá agora conferir algo totalmente novo”, conclui Cristiano Marques.

GARRAFA ENFORCADA
Espetáculo da Cia. Mário Nascimento. De hoje (22) a domingo (25), às 20h. Teatro Francisco Nunes. Parque Municipal, Av. Afonso Pena, 1.377, Centro, (31) 3277-6325. Ingressos: R$ 30 (inteira), R$ 15 (meia-entrada) e R$ 11 (postos do Sinparc)

NUVENS DE BARRO
Espetáculo da Cia. de Dança Palácio das Artes. Sábado (24), às 20h30, e domingo (25), às 19h. Grande Teatro do Palácio das Artes. Av. Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. Ingressos: R$ 30 (inteira), R$ 15 (meia-entrada) e R$ 11 (postos do Sinparc)