Festival de Londrina

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No ultimo dia de Outubro, antes que os tambores africanos e a potente voz da cantora e bailarina Fanta Konatê ressoassem na Concha Acústica de Londrina, a numerosa plateia presente ovacionou a liberdade de expressão. “Esta é a festa de encerramento da 15ª edição do Festival de Dança de Londrina. Mais que um fim, é um começo, um meio, uma continuação da luta que nós todos temos travado dia após dia pelo óbvio, pela manutenção de direitos há muito conquistados”, dizia o texto lido pelo coordenador de comunicação e curador Renato Forin Jr, junto da coordenadora geral Danieli Pereira. O show de finalização transformou-se também em um ato de resistência após os acontecimentos da véspera, quando a PM compareceu à performance “DNA de DAN”, do artista curitibano Maikon K, em razão de uma denúncia por “ato obsceno”.

Os mais de cem espectadores presentes na performance resistiram à abordagem do artista e da coordenação do Festival. A intervenção da polícia foi respeitosa. Maikon foi retirado do local pelo próprio público em mutirão e os coordenadores seguiram para o 4° Distrito Policial para prestar esclarecimentos. A performance conseguiu chegar ao fim e o evento mostrou todos os cuidados legais e de logística que tomou para preservar o artista, o público e os passantes, por meio de um rigoroso esquema que informava a todos sobre o conteúdo da apresentação e oferecia a possibilidade de caminhos alternativos a quem não desejava deparar-se com a apresentação.

A polêmica imediatamente deflagrou um caloroso debate, sobretudo nas redes sociais. O acontecimento em Londrina aparece na sequência de vários fatos recentes da vida nacional que também confrontam proibições conservadoras com a livre-expressão nas artes. O Festival de Dança imediatamente se posicionou e convocou a população para que o show de encerramento fosse um momento de resistência e reflexão sobre o avanço da intolerância. Também alertou para o uso político, com fartos dividendos eleitorais, que este tipo de repercussão articulada tem proporcionado a alguns grupos. “O que é obsceno neste país? Quais são os pudores neste tempo de tanta desgraça social e política?”, questionava o manifesto. E concluía com frases que, coincidentemente, estampam a contracapa do catálogo desta 15ª edição: “escrever em água-forte, à tinta, a giz, com sangue, em todos os lugares reais e virtuais deste mundo: 2017. Para que a miséria do cotidiano não nos faça esquecer em que ano estamos. (...) Para que saibamos que a arte deste tempo revela mais sobre quem vê do que sobre quem faz”.

Números - O cartaz, com o sorriso de uma criança e a explosão de cores, prenunciou: a cidade viveria dias mais bonitos e felizes com o 15º Festival de Dança de Londrina. Prometido e cumprido. Mais de 20 mil pessoas participaram das oficinas e assistiram aos espetáculos no Teatro Ouro Verde, na Usina Cultural e em espaços abertos da cidade. A força revolucionária da alegria foi suficientemente forte para vencer o momento mais difícil, quando defensores da ‘moralidade’ tentaram – e não conseguiram – interromper um dos espetáculos mais significativos da programação.

 O Festival – que completa 15 anos como evento essencial no calendário de Londrina e de referência no sul do país, com programação eclética e com curadoria ousada – teve nove dias, 17 espetáculos e cinco oficinas com grupos e profissionais das artes cênicas vindos de Salvador (BA), Belo Horizonte (MG), Curitiba (PR), Goiânia (GO), São Paulo (SP) e dos países africanos Guiné Conacri e República Democrática do Congo. As danças étnicas e contemporâneas destacaram-se na grade, que ofereceu ainda estilos como balé clássico e dança de salão, além de espetáculos de teatro e performance art.

Um dos fatores responsáveis pelo recorde de público – e que dá continuidade às suas ações de formação de plateias dos últimos anos - foi oferecer metade dos espetáculos gratuitos e a outra parte a preços acessíveis (R$10 e R$5 a meia-entrada). O objetivo foi conclamar a população a dançar junto dos artistas e transformar espaços inusitados em palcos a céu aberto. O efeito desse pas de deux foi incrível no sentido de movimentar corpos e mentes.

A abertura gratuita, com o emocionante “Lub Dub”, do Balé Teatro Castro Alves - BTCA, da Bahia, e o encerramento também gratuito, com a dança e o canto empolgante de Fanta Konatê e a Troupe Djembedon, da Guiné Conacri/Brasil, foram uma das formas de o Festival oferecer seu presente de 15 anos à cidade. Muitos outros espetáculos puseram milhares de pessoas, famílias inteiras, para dançar em espaços abertos como o Aterro do Lago Igapó e o Zerão.  Dentre eles, a celebração do “Bollywood Cosmic Dance”, com a energia do Coletivo Cosmic Dance (São Paulo-SP), um flash mob no mesmo estilo dos filmes indianos. A programação do feriado divertiu crianças e adultos de todas as idades com a dobradinha de “Carnaval é o ano todo”, do londrinense Bloco Bafo Quente, do “CarnaCLAC”, do CLAC (Centro Londrinense de Arte Circense), e da peça “De chapéu e coração, histórias de paixão”, do grupo Tuia (São Paulo-SP). Já “Cidade em Movimento”, da Escola Municipal de Dança, encantou o público ao dançar clássicos na Praça da Bandeira e em semáforos de Londrina.

No Teatro Ouro Verde, ainda teve mescla de dança de salão e contemporânea, com o espetáculo “Pretérito imperfeito”, da Mimulus Cia de Dança (Belo Horizonte-MG); dança em interface com aplicativos de celular, no “Devolve 2 horas da minha vida”, do Projeto Mov_oLA (São Paulo-SP); interação com máquinas, no “Sr. Will”, da Giro8 Cia de Dança (Goiânia-GO); e os percursos autobiográficos de regresso em busca de temas universais  com os espetáculos “Luis Antonio – Gabriela”, da Cia Mungunzá de Teatro (São Paulo-SP) – que fez o público se emocionar com a sensível história do irmão transexual do diretor Nelson Baskerville -, e o espetáculo “Le Cargo”, do bailarino e coreógrafo Faustin Linyekula, dos Studios Kabako (República Democrática do Congo, África).

A produção da cidade esteve presente ainda com o Ballet de Londrina, companhia anfitriã do evento. O grupo apresentou sua “Oração pelo fim do mundo”, um espetáculo que toca em temas urgentes como o totalitarismo, a intolerância, as formas de preconceito e o genocídio. Já o Núcleo Ás de Paus representou a verve teatral pé-vermelha com a lírica “DonAntônia”. A tradicional mostra “Dança Londrina” reuniu mais de dez grupos com coreografias de vários estilos: do clássico ao hip hop, da dança de salão ao jazz. Na mesma noite, a Escola de Ballet da Secretaria de Cultura de Ibiporã mostrou “Boomerang”, filiado ao jazz moderno.

A programação didática contou com cinco oficinas que mobilizaram cerca de 250 pessoas, não só bailarinos e atores profissionais, mas estudantes de artes cênicas, artistas amadores das mais diversas áreas e o público em geral, sem experiência prévia. Profissionais de renome do Brasil e do exterior conduziram os cursos de “Balé Clássico”, “Contemporâneo – A Tua Ação na Dança”, “Bollywood Cosmic Dance”, “Dança Africana” e “O Círculo da Dança”.

No campo da performance art, o destaque ficou para o já citado “DNA de DAN”, do curitibano Maikon K, alvo da polêmica. Mesmo com a PM comparecendo quase ao fim da apresentação, o brilho e as contundentes imagens vão perdurar na memória de Londrina. Aliás, alinhando-se à proposta curatorial desta edição, o público foi mais uma vez o destaque do espetáculo ao proteger e retirar o artista do local em mutirão. A cena do imenso cordão humano conduzindo-o ficará como registro histórico de resistência pela via da arte.