Entrevista - Regina Sauer

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Quais lembranças do início de sua carreira?

Alguns momentos são marcantes, como a primeira vez que fui chamada para coreografar profissionalmente. Foi para um show em Brasília, com 10 bailarinas, convidada pelo diretor teatral Ginaldo de Souza. Outro momento importante foi trabalhar com Lennie Dale e Marly Tavares, na novela Baila Comigo, em 1981. Fizemos a abertura e várias cenas coreografadas. Não posso deixar de falar na honra de ter na platéia do primeiro espetáculo, Rio in Concert da Cia Nós da Dança, onde sou diretora e coreógrafa, em 1981, o coreógrafo americano Alvin Ailey. A  Alvin Ailey American Dance Theatre estava em temporada no Rio de Janeiro e mandamos o convite, achando que seria muito difícil ele comparecer. Mas a surpresa foi imensa, quando nos telefonaram e pediram para reservar lugares para ele e equipe. Ao final do espetáculo ele subiu ao palco e cumprimentou todas as bailarinas, tecendo elogios. Eu já admirava seu trabalho e já tinha feito muitas aulas em sua escola de dança em Nova Iorque. Foi inesquecível!

 

Como você vê a vida do profissional de dança em nosso país?

É uma vida pra quem ama a profissão, pois os desafios são imensos. Nossa rotina requer muito trabalho suado (literalmente), requer entrega, exposição, dedicação e contínuo aperfeiçoamento. São muitos anos de aprendizado para se chegar a uma qualidade técnica e artística.  Numa época em que o imediatismo é a premissa principal, ninguém quer perder tanto tempo se aperfeiçoando. Hoje não vejo muitas pessoas, da nova geração, chegando com essa vontade ou essa entrega, principalmente se não há um retorno financeiro adequado. Muitos acham que podem aprender tudo na internet e rapidamente.  Além disso, nosso país vem atravessando uma crise e a dança vem sofrendo com isso, com pouca demanda de trabalho, ou trabalhos mal remunerados. Poucas políticas para a dança e pouco investimento privado fazem a situação ainda pior. É uma pena que nossos governantes não dê em importância à cultura e à arte. Com todas essas dificuldades os bailarinos profissionais estão tendo que diversificar suas atividades e isso significa mais horas de trabalho por dia. Temos que buscar a revalorização da dança no país, com mais oportunidades e melhor remuneração. 

 

Qual sua opinião sobre os festivais competitivos de dança?

Acho que eles são fundamentais no desenvolvimento artístico dos bailarinos em formação. A oportunidade de estar num palco, de ser avaliado, de receber conselhos e diretrizes é muito importante. Nos festivais encontramos os colegas, vemos as outras realidades, trocamos experiências e conhecimento, aprendemos com professores de fora da nossa cidade, vemos os outros trabalhos e aprendemos com isso. É uma carga enorme de informações. Muitas pessoas não concordam com a competição, mas acho muito enriquecedora, essa experiência. Afinal, nossa profissão é feita de audições e temos que estar preparados psicologicamente para isso. Os festivais nos dão essa vivência. A competição tem que ser encarada de maneira positiva, para se melhorar e não para derrotar o outro.

 

Como professora o que inspira em suas aulas?

O que me inspira são os alunos interessados, que querem aprender e se aprimorar. É a energia dos alunos que me alimenta como professora. É uma troca! Também me inspira ver o crescimento dos alunos que me chegam sem saber nada e vou construindo seu corpo e seu entendimento de dança.

 

Quando jurada, qual seu principal critério de avaliação?

Gosto de ver a coreografia na sua totalidade: a criação coreográfica, a técnica dos bailarinos, a energia e a harmonia do conjunto, a adequação do figurino e a combinação de todos esses elementos.  Mas sempre me interesso muito pela qualidade técnica e expressiva dos integrantes. Eles podem transformar uma coreografia em algo muito mais interessante, com a sua performance.

 

Qual a importância da graduação universitária em dança na formação de um profissional de dança? 

Ainda não vi resultados positivos, principalmente porque as universidades propõem mais matérias teóricas, do que práticas. Então, não acredito que elas formem professores, nem bailarinos, somente pensadores e pesquisadores. Acredito muito que a dança se faz na prática, nas aulas realizadas, nos ensaios, estando em cena. Isso é o que constrói um bailarino e um professor de dança. Portanto, penso que são as escolas de dança que cumprem esse papel. Acredito que uma universidade possa acrescentar, sim, em quem já tem vivência de dança.

 

O que é a dança para você?

A dança, como a poesia, usa imagens para traduzir emoções, sentimentos e dramaticidade. Com um vocabulário próprio (os movimentos) e com um instrumento particular (o corpo). É uma arte que nos arrebata, que nos toma, nos envolve, nos faz pensar, observar, sentir, chorar, rir, nos faz sentir que a vida pulsa dentro de nós e que o mundo é fugaz.

 

Regina Sauer começou a fazer aula de dança aos 3 anos de idade, na escola de sua tia Enid Sauer, onde também se tornou professora. Depois de tirar seu registro profissional, participou como bailarina de vários comerciais, programas e novelas para televisão, diversos espetáculos para a Prefeitura do Rio de Janeiro, Convenções de empresas e óperas, com coreografias de Lennie Dale, Marly Tavares, Vilma Vernon, Nino Giovanetti, Juan Carlo Berardi, entre outros. Se aperfeiçoou em Nova Iorque, nas escolas Alvin Ailey American Dance Center, Martha Graham School, Steps on Broadway, Dance Space, Broadway Dance Center, com renomados professores de jazz e dança moderna. Em 1981, fundou a Cia Nós da Dança, em atividade até hoje, com repertório de 20 obras completas. Fazem parte do currículo da Cia, temporadas nos Teatros Villa Lobos, Carlos Gomes, João Caetano, Cacilda Becker, CCBB, Centro Coreográfico da Cidade do rio de Janeiro, Circuitos Sesc e Sesi em cidades do Rio e São Paulo. Participou como convidada por 4 anos do Ballet Dance Festival of Miami e do Encontres de Danses Métisses, na Guiana Francesa. A Cia foi agraciada com o Prêmio Klauss Vianna em 2006, e vencedora dos editais da Caixa Cultural em 2013, 2015, 2016, 2017, dançando em Curitiba, Recife, Brasília e no Rio de Janeiro. Estreou em maio, o espetáculo MARIA. Em 1989, Regina Sauer e seu marido Fernando Filetto, abriram o Centro de Artes Nós da Dança, em Copacabana, sede da Cia Nós da Dança e escola de formação para bailarinos e estudantes de dança. Já formou diversos profissionais de dança que atuam em cias de dança, musicais, televisão e eventos. Regina dirige a escola e é professora de jazz e dança moderna. Entre seus trabalhos coreográficos estão Inauguração da Árvore da Lagoa, Auto de Natal, Auto de São João, Corpus Christi, para a Prefeitura do Rio de Janeiro, Programas Sandy e Junior, Criança Esperança, Amigos, abertura do Fantástico, diversos programas e novelas para a Rede Globo de Televisão e em 2017, Rock in Rio. Durante 20 anos trabalhou em comissões de frente, alas e carros coreografados para Mangueira, Vila Isabel, Salgueiro, Imperatriz Leopoldinense, Grande Rio, São Clemente e Porto da Pedra. Durante 10 anos dirigiu e produziu o Festival de Dança de Rio das Ostras e durante 6 anos foi curadora do Festival de Dança de Três Rios. Atua como jurada e professora em vários festivais pelo país, como Festival de Joinville, Festival do Triângulo Mineiro, MoviRio e Dança in Rio. Regina viaja pelo Brasil, ministrando workshops, oficinas e palestras.