Entrevista com Dani Alves e Karina Collaço

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Entrevista com Dani Alves e Karina Collaço
sobre o projeto "Ensaio sobre algo que não sabemos"

1) Como está sendo o desenrolar do projeto ? Em que fase está o processo?

Permanecemos em processo de construção e essa característica parece ser a potência deste projeto: a persistência em exercitar a escuta, em permitir-se habitar um espaço de incertezas. Nossos treinamentos são alimentados por muitas reflexões referentes à questões que permeiam nossas vidas. Estamos tendo o acompanhamento da artista Paloma Bianchi que, através de seus questionamentos, procura estimular nosso processo criativo e problematizar as questões que estamos investigando: o corpo como fenômeno de expressões vinculadas à sua visão de mundo, carregando para a cena suas cicatrizes. Recebemos um convite para participar do Seminário de Pesquisa em Artes Cênicas da UDESC. Estruturamos uma demonstração chamada “ação colaborativa para processo criativo”, estabelecendo um espaço de troca e compartilhamento através de um diálogo teórico-prático. Fomos presenteadas nesse encontro por uma série de críticas que de alguma forma fortaleceram nossos estudos e nos proporcionaram novos olhares para o projeto. 

2) Sobre quais temas o ensaio está sendo estruturado? Como eles (temas) se relacionam com a construção dos gestos? Sobre o que falam por meio do corpo?

Estamos pensando no trabalho como um diálogo com a vida, construindo um mecanismo de criação gerado por nossas próprias experiências. Apontar nossas incertezas, refletir sobre nossos medos... Diante do contexto em que nos encontramos, algo está muito latente: discussões relacionadas ao feminismo. Onde podemos chegar com tais reflexões? O que o feminismo como teoria, como filosofia e como prática tem a nos dizer e a nos ensinar? Vivemos em uma sociedade patriarcal, que estabeleceu privilégios ao homem, ao mesmo tempo que o abandonou a uma miséria espiritual. Compreendemos o feminismo como uma potência transformadora e falar sobre esse tema nos coloca em um universo de incertezas. A única certeza que temos é que precisamos falar.

O corpo é parte constituinte da sociedade, articula e dialoga com o mundo em que vive. Então a violência, a sujeição, a objetificação são alguns dos princípios que norteiam nossos gestos. Procuramos levar à cena gestos que possibilitem ao espectador outro olhar para aquilo que lhe é habitual, de modo a redefinir as inúmeras formas de que os enxergamos - gestos comuns a todos, mas que são carregados de subjetividades, gerando incômodo ao público justamente por saírem da zona de intimidade e serem compartilhados na cena.

3) Ensaio para algo que não sabemos pode ser uma forma de evidenciar a riqueza do processo criativo e construtivo? Pensando neste território "nome da obra" o resultado é indefinido "não sabemos o que é, questiona essas certezas do nosso tempo, os resultado premeditados? Há alguma reflexão neste sentido?

Vivemos em uma sociedade que prega a certeza, a convicção, a perfeição, a verdade absoluta, mas, no entanto, nada disso parece fazer sentido. Essas imposições também são frutos de nossa construção social. Nosso interesse preza pela importância de se permitir experienciar. A experiência é fruto de nossas relações com o outro e/ou através do outro, isso possibilita a transformação do sujeito. A verdade pode ser vista como o desejo de transpor sua essência, mas talvez nunca a tenhamos de fato, pois se compreende a existência como um espaço de dúvida e consequente incompletude. Incertezas. Não saber.

4) E como está definida a agenda do projeto? 

Temos neste primeiro momento a oficina com Tuca Pinheiro, nos dias 08 e 09 de junho. Em breve também com a artista Paloma Bianchi até a nossa agenda de espetáculos e oficinas de 14 a 15 de setembro no Teatro SESC em Jaraguá do Sul, de 28 a 30 de setembro no CEART/UDESC em Florianópolis e de 05 a 07 de outubro no Teatro Municipal Bruno Nitz em Balneário Camboriú.