ENTREVISTA - Camila Schäefer

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Entrevistamos a Brasileira que atualmente dança em Nova York e participa de diversos projetos fotográficos

 

Quais lembranças do início de sua carreira?

Sempre fui perfeccionista e no início da minha vida profissional, lembro de estar preocupada e atenta a erros. Queria passar a impressão de excelente profissional e de ser uma artista com quem as companhias de dança podiam sempre contar.Cresci muito com essa mentalidade, e acabei deixando de lado a parte artística, porque me preocupava demais no que o Diretor estava pensando. É claro que devemos nos preocupar com isso, mas me lembro de focar tanto no que os outros pensavam, que eu muitas vezes esquecia o verdadeiro porquê de estar dançando. Além de toda a pressão e de executar bem e limpo os passos, não podemos deixar de mostrar quem realmente somos por dentro. Minha mãe sempre disse antes que eu entrasse em cena “Faz cara de Camila”. Sim, temos que dar o melhor de nós mesmos, mas acima de tudo, não podemos deixar de ser artistas.

O mundo da dança é muito difícil, e com tanta cobrança não só dos diretores e ensaiadores, mas eu comigo, foquei muito na perfeição e na técnica e estava deixando de lado a arte que se encontra no ballet clássico. A partir do momento em que comecei a mostrar mais o meu “jeito Camila de ser” a dança se tornou mais prazerosa, a minha saúde mental ficou mais feliz, e me faz espalhar essa energia boa com todos ao meu redor. Com isso vieram mais oportunidades, e isso apenas porque sou quem eu sou.

Como você vê a vida do profissional de dança em nosso país?

Sou formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa e dancei com o Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro nas produções de Coppelia e O Quebra Nozes. Dancei com vários profissionais que são reconhecidos mundialmente e tive a honra de dançar no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, uma grande joia que a cidade tem. No Brasil temos excelentes profissionais, e digo isso não só com relação à técnica dos bailarinos e mestres da dança, mas principalmente com relação aos profissionais que tem muita gana e muita força de vontade. O país sofre uma grande crise e os artistas sofrem muito por isso, muitas vezes nem tendo dinheiro para comer, ainda sim os bailarinos brasileiros lutam e muito para que o ballet clássico e outros estilos de dança, não morram.

Quando profissionais de fora descobrem de qual país que eu sou, sempre me dizem “O Brasil tem muito bailarino bom” e isso me enche de orgulho! Infelizmente com a crise, muitos bailarinos estão saindo do país, incluindo eu, mas não esquecemos de onde viemos e representamos os brasileiros como pessoas que lutam pelo que querem, que tem paixão pelo que fazem e que amam demais o nosso Brasil.

Qual sua opinião sobre os festivais competitivos de dança?

Essa é uma pergunta bastante difícil de responder e que causa polêmica. Nos festivais é fácil diferenciar qual bailarino é apenas atleta e qual é artista. O ballet, mesmo sendo uma arte em que utilizamos o corpo, ela é, acima de qualquer outra determinação, arte. Com isso, pode-se avaliar quem executou com mais técnica determinado passo, mas não se pode avaliar a arte em si. Competições de dança são um ótimo meio para se expor e para ser desafiado, mas na minha opinião, deveria ter mais festivais de dança ao invés de campeonatos de dança. Onde os bailarinos podem se expor como verdadeiros artistas e não máquinas que executam com perfeição os passos.

Como isso ainda é bem difícil de se achar e eu queria me expor mais como bailarina, eu participei de dois campeonatos de dança nos últimos anos: O World Ballet Art Competition e o Valentina Kozlova International Ballet Competition. Eu cresci muito nesse processo e como eu fui por conta própria, eu conversei muito comigo mesma, como se eu fosse a minha própria mentora. Nesses dois campeonatos, eu disse incansáveis vezes que eu não estava competindo com ninguém além de mim mesma, e que eu estando lá, sendo vulnerável mostrando quem realmente sou no palco, eu já era uma vitoriosa e que deveria me orgulhar de estar no meio de tantos bailarinos talentosos.

Com essa ideia em mente, eu consegui primeiro lugar na semifinal e na final do WBAC e prêmio de Best Interpretation of the Contemporary Compulsory no VKIBC. Me lembro que eu saia do palco e ia para o vestiário e mesmo antes de saber o resultado, nada realmente importava. Eu me vi muito emocionada e com muito orgulho de ter conseguido ser a artista que eu queria ser no palco. Para mim, esse é o prêmio mais gratificante que alguém pode conseguir.

Qual a importância da graduação universitária em dança na formação de um profissional de dança?

Eu não tenho uma graduação universitária em dança. Na época em que estava fazendo o terceiro ano do Ensino Médio, eu conversei com vários profissionais da minha área e também com profissionais que dão aula em universidade para bailarinos. Cheguei à conclusão de que para o futuro que eu queria, era melhor focar na parte física do ballet, ou seja, fazendo mais aulas e me expondo mais ao mundo profissional. Com certeza foi a melhor decisão para mim. Conheço vários outros bailarinos que se formaram em dança e acredito que dependendo do futuro que você quer nesse meio profissional, a graduação universitária é bem útil.

O que é a dança para você?

A dança é minha alma. É o que literalmente me move, o que me desafia, o que me faz amadurecer, o que alimenta a minha mente.Sou muito grata a tudo e a todas as pessoas e oportunidades que a dança tem me mostrado. Realmente a dança, por mais difícil que seja ser um profissional na área, tem me dado uma vida que eu jamais imaginei que teria.

Saiba mais - Atualmente dança ballet clássico/neoclássico em Nova York e sempre atualizo minhas redes sociais com os mais recentes projetos. Se quiser saber mais sobre de mais novo acontecendo, só me seguir ou mandar uma mensagem para @camilasdr (Instagram)