ENCONTRO MARCADO

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Por Tindaro Silvano.

O ano de 1980 foi emblemático para a Companhia de Dança do Palácio das Artes, que vinha até então celebrando o sucesso retumbante de duas temporadas seguidas com os trabalhos do diretor argentino, com carreira consagrada na Europa, Hugo Dellavalle. Pela primeira vez em Minas Gerais foi remontado, no ano de 1979, o ballet Romeu e Julieta de Prokofiev em seus três atos, e o público lotou o grande teatro nas várias récitas das duas temporadas. Devido ao sucesso desses programas, houve uma procura muito grande de bailarinos de diversas partes do Brasil (e do exterior) interessados em participar do elenco desta companhia.

Mas, por que 1980? Nesse ano, o Palácio das Artes, com seu Corpo de Baile, foi escolhido para acompanhar a primeira tournée brasileira do ícone da dança daquele momento, Mikhail Baryshinikov e sua partner Zandra Rodriguez (venezuelana e primeira bailarina do American Ballet Theater).

Apesar da mudança de direção, pois saíra Delavalle e entrara o diretor argentino, Eduardo Helling, apostou-se (meio a contragosto do elenco) num programa onde o corpo de baile dançaria dois ballets supostamente de peso, Les Sylphides, de MiKhail Fokine e Concerto de Mozart, de George Balanchine, ambos remontados por Hellling.

A tournée durou aproximadamente 40 dias e, nesse período, essa equipe se deslocou pelo Brasil intensamente, indo e voltando para São Paulo, Rio de janeiro, Porto Alegre, Brasília, Belo Horizonte e dançando sempre em grandes teatros líricos e espaços mais democráticos como o Arena do Corinthians em São Paulo, o Gigantinho em Porto Alegre, o Mineirinho em BH e o Maracanãzinho no Rio de Janeiro.

Apesar da grande resistência e ciúmes de toda a classe de dança do país, e mesmo da mídia nacional, a tournée atraiu milhares de pessoas, e esses bailarinos ficaram muito expostos e conhecidos por todos do meio da dança e do público em geral.

Ao término das viagens, como já era de se esperar, houve muitas demissões, e mais da metade da companhia se viu obrigada a procurar novos caminhos para que pudessem dar continuidade a seus sonhos artísticos. Era um elenco forte e a grande maioria tinha um ideal artístico e uma vontade enorme de se firmar no meio da dança como profissional e viver de sua profissão. O país engatinhava em termos de companhias estatais e privadas.

Dessa parcial desintegração sobrou menos da metade do elenco e, os que saíram conseguiram trabalho em outras cidades do Brasil e do exterior. Alguns partiram para a Europa e os Estados-Unidos. Vários para os Municipais de Rio de Janeiro, São Paulo ou Teatro Guaíra em Curitiba, outros ainda para o recém-criado Grupo Corpo em BH.

Obviamente não foi uma ruptura fácil na vida de nenhum desses jovens artistas. Os que ficaram se sentiram desamparados e os que partiram em sua grande maioria o fizeram com grande mágoa, pois o Palácio das artes seria o lugar ideal para se montar a melhor companhia de dança do país e Belo Horizonte era, na época um primor em qualidade de vida.

Passados muitos anos, um pequeno grupo de sobreviventes dessa “hecatombe” resolveu tentar aglutinar, a título de comemoração, toda esta turma que se encontra atualmente espalhada pelos 4 cantos do mundo.

Graças às novas mídias, foi criado um grupo no WhatsApp e, no ano passado, foi feito um encontro na casa da bailarina Silvia Gomes, residente em BH,  e o mesmo foi muito prestigiado e apreciado por todos os presentes. Esses convivas já saíram dali planejando um próximo evento.

Neste ano de 2016, haverá um almoço de confraternização na casa da também ex-corpo de baile Inês Chaves, que atualmente se dedica ao seu Buffet no bairro Sion. Inês promete caprichar nas entradas, cardápio principal, sobremesa e bebidas, tudo de primeira, assim como esta turma merece.

A ideia desses encontros é tentar resgatar o sentimento de alegria e de artisticidade que permeava o convívio desses artistas quando jovens. As discussões entre eles passavam não somente pelas questões técnicas e artísticas em relação à dança, mas também ali se falava de vida, filhos, filosofia, dietas, musica clássica, cinema e tudo o mais que é relativo aos anseios da juventude em forte ebulição.

A ideia da criação deste grupo, que faz do whatsapp sua sala de visitas, parte do princípio que não devemos ali desperdiçar o tempo mandando piadinhas, fofoquinhas, deboches e risarias gratuitas, tão presentes na maioria dos grupos de redes sociais. Houve ali um acordo de se postar assuntos pertinentes à vida, à arte e a tudo o que for importante para a continuação da evolução de seus integrantes como pessoas e como artistas.

Que seja mantida a chama acesa. Mesmo que quase quatro décadas depois do grande encontro.