Angel Vianna

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A dança como instrumento da liberação do corpo e da mente se entrelaça na vida e obra desta educadora, coreógrafa, bailarina, berço da expressão corporal nos anos de 1970. Perto de completar 90 anos, em junho, Angel Vianna segue na ativa e antenada com o mundo. Ela é homenageada na 38ª mostra da série Ocupação, que abre a temporada neste ano.

Entre tules que recebem projeções de coreografias, entrevistas gravadas com depoimentos, muita leveza, vídeos, fotos, documentos, manuscritos e jornais constroem a trajetória da vida e da obra de Angel Vianna na mostra que leva o seu nome. Ocupação Angel Vianna, abriu no Itaú Cultural no dia 28 de fevereiro, seguindo em cartaz até 29 de abril. A curadoria é compartilhada pela equipe do Itaú Cultural, formada pelos núcleos de Cênicas e de Educação, ao lado da bailarina e coreógrafa AnaVitória.

Pesquisadora do movimento, bailarina e coreógrafa, Angel mobiliza o universo da dança brasileira desde 1940, sempre investindo, em paralelo, na formação e na construção de consciência crítica e reflexiva sobre a área. Produz, cria e ensina dança desde 1948 e, ao lado do marido, Klauss Vianna (1928-1992), é uma das pioneiras da dança contemporânea no Brasil. Sua importância para a área, revestida de energia e sensibilidade, é singular e revelada nesta que é a 38ª mostra da série Ocupação e abre a temporada de 2018 no instituto.

Nascida em Belo Horizonte, Minas Gerais, filha de libaneses, Angel iniciou as suas atividades na dança aos 12 anos e nunca mais parou. Rompeu com as convenções conservadoras da família e casou com Klauss, companheiro de trabalho e vida que conheceu em 1943, no Colégio Padre Machado. Com ele, replicou o movimento da Dança-terapia e Expressão Corporal no Brasil e se instalou no Rio de Janeiro, há mais de meio século, onde vive até hoje.

Bem antes, em 1955, montou sua primeira escola de dança, em Belo Horizonte, na casa em que foi morar com o marido. Em 1959, o casal fundou o Ballet Klauss Vianna, consequência do sucesso que foi a escola. Em 1975, os dois inauguraram o Centro de Pesquisa Corporal Arte e Educação, embrião da Escola Angel Vianna que se confirmaria anos depois, em 1983, no Rio.

Angel é reconhecida em seu trajeto na dança por seu olhar sensível às singularidades dos corpos. Realizou profunda investigação voltada ao corpo e ao movimento. Com propostas corporais centradas na autonomia e nas experiências pessoais de cada indivíduo, seu trabalho se estendeu aos campos artístico, pedagógico e terapêutico, ajudando na reabilitação de pessoas com deficiências. A partir dessa filosofia, ela inovou com trabalhos coreográficos por meio das companhias que criou: Ballet Klauss Vianna, Grupo Trans-forma, Teatro do Movimento, Profissionais Liberados e Geração Complemento, em parceria com Frederico Morais e outros. Tudo isso, ela fundamenta sobre a ideia de que todo ser humano é criador e de que as particularidades individuais são a essência dessa criação.

A Ocupação

Pela primeira vez, o nome da Ocupação na entrada do espaço expositivo está colocado na vertical. Há uma razão para isso, que dialoga com o que o visitante encontrará lá dentro: a proposta é força-lo a inclinar o pescoço deslocando-o do movimento do lugar comum.

Entra-se nesse espaço ambientado em uma paleta de cores vermelhas e pretas, por uma porta dupla de madeira para chegar a imagens do acervo de Angel, com registros do Ballet Carlos Leite, Ballet Klauss Vianna, Teatro do Movimento e espetáculos dela. Ao lado, se encontram trabalhos como o pé de bailarina e a cabeça – duas esculturas feitas por ela -, além de desenhos seus. Há, ainda, uma parte destinada à Escola Angel Vianna, com fotografias e vídeo do lugar.

Na sequência, uma grande foto de Angel abre caminho para a exposição de cadernos originais com marcação de aulas da década de 70 e fac-símiles para manuseio. O percurso segue com uma projeção de Aula do Papel. Dispositivos criados para esta exposição – uma espécie de monóculo-caleidoscópio – presos na parede mostram vídeos da bailarina dançando em espetáculos da década de 1990 e aos anos 2000.

Um espaço dedicado à família, traz imagens dos pais, de sua infância e juventude e dela com Klauss e o filho Rainner, além de depoimentos de sua nora Neide, da neta Tainá e uma entrevista em que o filho fala de sua mãe. A exposição também revela a referência bibliográfica que foi importante para a trajetória da artista, biografias sobre ela e a obra A Dança, importante livro de referência para as artes cênicas, cuja primeira edição foi escrita nos anos de 1990 por Klaus Vianna – os dois últimos capítulos estão disponíveis em braile e com a fonte ampliada, uma das diversas ferramentas de acessibilidade que norteiam esta exposição.

As paredes, revestidas em tule para que o visitante tenha a liberdade de percorrer o espaço expositivo sem seguir um curso pré-estabelecido, rodeiam um núcleo central   que exibe conteúdos em   audiovisual: uma mescla de registros de alongamentos de Angel no ensaio do espetáculo Ferida Sábia e de um conjunto de diversas danças da artista, conteúdos de seu acervo e trechos de documentário. Neste espaço, encontram-se bancos que propõem uma movimentação do corpo, com a proposta de incentivar uma percepção diferenciada de posturas e movimentos. No teto, espelhos de diferentes tamanhos remetem a uma visão de diversas partes do corpo, chamando a atenção para eles. Nas paredes de tecido estão projetados vídeos de Angel dançando, ensaiando, se alongando.

Programação em sinergia e acessibilidade

Além de uma publicação preparada especialmente para esta Ocupação, a equipe do Itaú Cultural programou atividades de dança que dialogam sinergicamente com a mostra. Nos dias 1 e 2, às 20h, na sala Multiuso do instituto, é apresentada a instalação performática Ferida Sábia, com direção e coreografia de AnaVitória, que também atua ao lado de Angel Vianna, Priscilla Teixeira, Renata Costa e Soraya Bastos. Com direção e dramaturgia do ítalo argentino Norberto Presta, no sábado e domingo – dia 3, às 20h, e 4, às 19h – Angel executa o solo Amanhã é Outro Dia no palco da sala Itaú Cultural. De 5 a 8 de abril, ela se apresenta em O Tempo Não Dá Tempo, que estreou no Rio de Janeiro no início do ano e agora chega inédita para o público de São Paulo. Os são textos de Gregório Duvivier, Gonçalo M. Tavares, Oscar Saraiva e a direção de Duda Maia.

Esta mostra também conta com ferramentas de acessibilidade como paisagem sonora, videoguias produzidos em Libras e legendados em português, para atenderem aos públicos ouvintes e surdos. Para os cegos, o instituto segue oferecendo audiodescrição, mapa tátil e piso podotátil.  Os textos têm versão em braile e estão ampliados para pessoas cegas e com baixa visão.

Ocupação Angel Vianna integra o rol de atividades do Itaú Cultural que visam valorizar a dança brasileira. Já foram homenageados pelo programa Ocupação artistas e coletivos do setor como Grupo Corpo, Ballet Stagium e o casal Maria e Herbert Duschenes. Veja em www.itaucultural.org.br/ocupacao