ANDREA RAW

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Quais lembranças do início de sua carreira?

Comecei muito jovem a dançar, aos 5 anos de idade, na academia da minha tia, no Rio de Janeiro. Eu fazia aulas de todos os estilos, naquela época, anos 80, estávamos no auge do Jazz, que eu pratiquei com muito afinco, além do Ballet Clássico, da Dança Folclórica brasileira e estrangeira, do Sapateado americano (que fiz por 12 anos) e do sapateado Flamenco. Tive uma formação muito rica e diversa. 

Como você vê a vida do profissional de dança em nosso país?

Atualmente classifico como muito difícil. Desde os anos 90 temos testemunhado o desmonte de uma cadeia produtiva muito efervescente, que era a da Dança nesse país. Havia produtores que traziam para cá as grandes companhias e eu cresci assistindo à elite mundial dançar no Teatro Municipal do Rio e nos grandes teatros. Isso era fundamental para nos motivar, formar uma platéia fruidora de dança e impulsionar a cadeia produtiva - com pessoas interessadas em Dança, estúdios com um número expressivo de alunos, bons professores, boas aulas, fomentos locais para manutenção de companhias daqui (como a RIOARTE, que foi extinta), a dança sendo protagonista em comerciais, aberturas e programas de TV. Todo esse panorama me fez querer me tornar uma profissional do setor. Hoje em dia, não há investimentos na área, não temos mais produtores trazendo bons espetáculos, vários estúdios fechados, a qualidade técnica e artística decaiu bastante. Não temos mais uma indústria ou um mercado significativo de dança no Brasil, infelizmente. 

Qual sua opinião sobre os festivais competitivos de dança?

Eles sempre existiram e sempre foram importantes para o desenvolvimento da Dança amadora. São grandes oportunidades para os que estão em formação para experimentarem os palcos. Eu tive uma carreira extensa como bailarina amadora e dancei muito em festivais. Apenas acho que atualmente eles são mais atuantes e presentes do que o circuito profissional da Dança e aí vejo um problema. Precisamos de ajuda para revitalizar o circuito profissional da Dança, ou melhor, essa cadeia produtiva, essa indústria. Veja o exemplo do Teatro Musical. Foi fruto de muita luta e empenho de profissionais como Charles Moeller, Claudio Botelho, Jorge Takla, Miguel Fallabela e outros para atrairem investimentos e expandirem esse nicho, que agora converteu-se em uma indústria que emprega muitos profissionais, cada vez mais eficientes, competentes e brilhantes. A dança profissional precisa disso, pois nossos jovens talentos estão todos saindo daqui para outros países. 

Como professora o que inspira em suas aulas?

A constante busca pelo aprendizado e pela excelência. É preciso estar em constante evolução.

Como coreografa e interprete o que te inspira?

Acredito que o mesmo. Eu busco a excelência. Sou uma amante da boa música e realmente a música me inspira demais. A minha dança sempre parte de uma boa música, algo que me transporte, me eleve o espírito e me toque de alguma forma. Gosto de beleza. Tenho problemas com o grotesco, aspecto tão em vigor na contemporaneidade. Não gosto do grotesco. Gosto de beleza, harmonia e elevação espiritual, de alguma forma. 

Qual a importância da graduação universitária em dança na formação de um profissional de dança? 

Abre mais horizontes para o profissional da nossa área. Estudar e evoluir são aspectos muito importantes para qualquer profissional. Se alguém tem a oportunidade de evoluir em seus estudos, não deve desperdiçar nunca essa chance. A vida sempre pode nos surpreender e é importante estarmos em evolução permanente. 

O que é a dança para você?

A Dança sempre foi meu porto seguro, minha casa, meu refúgio, minha motivação maior para seguir em frente. Perante todas as dificuldades e desilusões da vida, eu sempre respirei fundo e voltei para a minha aula. É como estar em casa. É muito mais do que uma auto disciplina, acredito que seja um modo de vida. Me fez encarar a vida com perseverança e propósito. Num mundo de pessoas tão superficiais e perdidas, ter um propósito de vida é algo muito positivo; faz sua vida ter sentido, te dá direcionamento e lucidez. 

Saiba mais sobre  ANDREA RAW

Bailarina, Professora, Coreógrafa e Pesquisadora em Dança, iniciou seus estudos no Rio de Janeiro em 1983. Dançou extensivamente em festivais por todo o país, além de ter atuado em diversas companhias e grupos de Dança amadores e profissionais. Graduou-se no Bacharelado em Artes Cênicas pela UNIRIO e em Docência dos Ensinos Fundamental, Médio e Superior pela UCAM. Começou a lecionar em 1992, destacando-se no ensino da Dança Moderna no Ballet Stagium, em São Paulo, Petite Danse, Escola Marta Bastos e Centro de Movimento Deborah Colker, no Rio e no MMS em Budapeste, na Hungria. Formada pela Martha Graham School em NY, foi idealizadora e produtora do I e II Workshops de Técnica e Repertório de Martha Graham no Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro em 2009 e 2010, além de Workshops com David Parsons (2010) e Ana Marie Forsythe, da Ailey School (2011 e 2012). Idealizadora, Produtora e Diretora Artística do Congresso Brasileiro de Dança Moderna, realizado anualmente desde 2011. Em 2017 foi nomeada numa cerimônia em Vienna Embaixadora da Dança no Brasil, representando a Agency for Cultural Diplomacy (EUA/Alemanha), além de ter sido agraciada com o Alto Jonio Dance Career Award no FINI Dance Festival, na Itália.